Hoje é um Bom Dia


Pobreza não é uma exclusividade do País da Putaria e adjacências. Temos pé-rapados aqui no Hemisfério Norte também.

Estava eu montado na minha bicicretinha sorveteira quando fui abordado com um guri que parecia ter acabado de sair de um portal dimensional com uma ligação direta com a favela da Rocinha. O moleque – que não devia ter mais que 12 anos – era um caucasianinho, mas o resto de suas características (mais notavelmente seu cheiro) o faziam parecer mais com um habitante do terceiro mundo. Não gosto de fazer suposições sobre a vida dos outros, mas suspeito que o moleque tinha se trancado numa sauna por quatro horas e em seguida tomado banho de mijo de gato e lavado o cabelo com gema de ovo podre.

Completando o deprimente quadro, a putrefata criança carente canadense estava semi-descalça: chinelinho sujo num pé, chão quente no outro.

O remelento se aproximou da bicicleta e começou a avaliar o “cardápio”. De joelhos no chão e rente ao refrigerador, o garoto traçava com o dedo linhas indo de um lado pro outro nas ilustrações dos sorvetes, avaliando as escolhas.

Sabendo que o desgraçado ia demorar pra fazer a decisão – já tinham se passado dois minutos. A maioria dos fregueses já me aborda sabendo o que quer -, tomei a liberdade de sacar o Palm e, pra matar o tempo, desenhei uma casinha:


A julgar pela complexidade do desenho – veja, tem até uma chaminé -, dá pra perceber que o garoto passou um bom tempo escolhendo seu sorvete. Perdi a paciência totalmente, embolsei o palm e comecei a empurrar a bicicleta.

O moleque não se deu por vencido. Ele e as moscas que o seguiam continuaram orbitando a bicicleta, olhando fixamente para o menu composto de adesivos com fotos dos sorvetes. Meti o pé no chão, paralisando a bicicleta. O sol batia a pino, não havia nenhuma árvore na rua e minha paciência tava indo embora junto com meu suor.

– Puta que pariu, moleque. Vai comprar essa desgraça ou ficar só olhando? – ao dizer isso, coloquei o pé na frente da plaquinha com o número serial (18) da bicicleta. Não queria dar pro guri uma identidade pela qual ele pudesse ligar pro meu chefe e reclamar do atendimento. Acreditem, isso acontece com frequência.

– Ahn, tou escolhendo, tou escolhendo. – e meteu o dedo no nariz.

Suspirei fundo. O cabelo já estava a essa altura totalmente empapado de suor, e uma mecha molhada insistia em cair na minha cara, sujando as lentes dos meus óculos e elevando a frustração a um expoente de pelo menos três dígitos. Puxei a cabeleira pra trás, irritado com o desgraçado.

O moleque finalmente se levanta e manda:

– Ah, eu queria um Ice Cream Sandwich, mas tá caro demais.

Dá as costas e caminha de volta pra casa, sem a menor cerimônia.

O sorvete que ele queria custava 1,50. UM E CINQUENTA! Se o pivete tivesse afim de um Cookie Dough, que é a mercadoria mais cara da bicicleta, eu entenderia. Mas UM E CINQUENTA.

Pensando bem, foi até bom que ele não comprou o sorvete. Ia estragar o apetite dele pra sopa de caixa de papelão que sua mãe deve ter preparado pra ele e pra seus oito irmãos.

[ Update ] Finalmente.

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agosto 16, 2005 - Posted by | Uncategorized

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