Hoje é um Bom Dia


Você está olhando para uma pilha de quase cinco quilos de docinhos e salgadinhos, arrecadados no último dia 31 (a.k.a. “O Halloween”) quando crianças candenses e imigrantes brasileiros saem implorando guloseimas de porta em porta, vestindo fantasias de seus personagens favoritos, apenas para perceber consternadamente horas mais tarde que crentes oportunistas desgraçados esconderam mensagens evangélicas no meio dos doces.

Antes que alguém diga que é lorota, permitam-me exibir a Prova A, escaneada na manhã seguinte por uma amiga:


In a scary world, christians hide proselitism in candy
Inacreditavelmente cômico, porém mais pura verdade. Os proselitistas tiveram a AUDÁCIA de afixar mensagens religiosas nos meus doces! Falta de respeito do cacete. Queria ver se eu passasse entregando panfletinhos sobre satanismo na casa deles. Seria uma putaria.

Essa artimanha é resultado da neurose de uma cambada de cristãos americanos, que decidiram que o Halloween é um ritual sombrio que abrirá portais para uma dimensão demoníaca habitada por criaturas de Lúcifer e atendentes de telemarketing cuja missão é espalhar a leptospirose no mundo. Eles se convenceram piamente de que Satanás em pessoa convenceu as crianças a aderir a este ritual em troca de doces grátis (como se os doces por si só não tivessem esse poder de persuasão), e agora estão tentando ganhar nossas almas de volta. Todos os esforços são válidos, incluindo a tarefa tediosa de grudar bilhetinhos em milhares de bombons.

Se há uma coisa que eu sinto falta nos meus tempos de cristianismo, é essa ilusão bacana de estar jogando uma partida de War com o Príncipe das Trevas. Os caras estão sempre lutando contra o Tinhoso, disputando espaço e tal. O pensamento cristão de estar “perdendo terreno” pro Belzebu é, apesar de um sintoma grave de desequilíbrio mental, emocionante.

Ao menos valeu as risadas, que eu repasso a vosmicês.

Mas o melhor da noite não foi isso. Antes de sair pra me encontrar com a turma naquela noite, notei que o nick do Adam no MSN era “Halloween, dia de roubar doces da criançada“. Ou melhor, era o equivalente em inglês, mas como já estourei o limite não-oficial de uma frase em inglês por post, fica a tradução.

(Puta que pariu, meus fones de ouvido pararam de funcionar. Logo agora que tou sem a grana do Adsense pra comprar uns novos. Alguém quer doar alguns dólares pra mim por paypal?)

De qualquer forma, eu achava que o nick do rapaz era apenas alegórico. Ao fim da noite, todos descobrimos que era tão literal quando poderia ser.

Quando cansamos de esmolar doces, voltamos pra casa do Ryan pra fazer a tradicional troca de bombons. Geralmente você gosta de apenas 50% do que arrecadou, e como a máxima vale pra todos, isso significa que é provável que o seu amigo pegou um monte de coisa que você gosta, e ele não. E vice versa. Todos esvaziamos as fronhas no chão, e estabeleceu um mercado de escambo.


O dólar está para mercado monetário assim como um Rocket está para as trocas de Halloween. Por ser um docinho barato, ele era o mais comumente encontrado. Cada um de nós tinha pelo menos trinta rolinhos como esse da foto em nossas fronhas. Obedecendo as regras econômicas de inflação (e levando em consideração que ele não é assim tão gostoso), seu valor era baixo.


Smarties são uma espécie de Xerox mal feita de M&M’s, embora essa analogia esteja relativamente incompleta pois eu não sei se xerox’s têm gosto de papelão. Apesar desse sabor peculiar, Smarties são um tanto mais populares que Rockets, então cada caixinha equivale a três ou quatro rolinhos dos drops coloridos acima. O preço varia de acordo com quem você troca, alguns moleques adoram o M&M’s falsificado e não abrirão mão dos tais por menos de nove rolinhos. Um roubo.


Caixinhas de Reese’s Pieces eram uma das mais cobiçadas guloseimas recolhidas, e é fácil entender por que. Gringos são notórios por sua adoração quase mórbida pela horrível pasta/manteiga de amendoin, que é recheio dos tais Reese’s Pieces. Une-se a isso o preço levemente mais alto, e o doce se torna praticamente um luxo dos esmoléus de Halloween. Devido ao alto preço de troca (uma caixinha dos Pieces custa às vezes três caixinhas de Smarties, ou duas caixinhas e cinco Rockets), Reese’s Pieces é um supérfluo entre os supérfluo. Tipo, se você vivesse à base de doces, comeria Pieces de sobremesa.

A namorada adora e eu odeio, então dei tudo pra ela. Levei um golpe do baú bonito.

Ao fim das trocas, Adam e seus comparsas chegam esbaforidos na casa do Ryan. Em suas mãos, uma fronha absolutamente LOTADA de doces. Antes que pudéssemos perguntar, Adam explicou.

Ele e três amigos estavam dirigindo em círculo, tal qual abutres, procurando a criança cuja fronha estivesse mais abarrotada. Finalmente escolheram a presa, e então puseram o plano em prática: o motorista do carro interceptaria o moleque enquanto Adam, dependurado na janela do lado do passageiro, arrancava a fronha das mãos do pobre infeliz que, quando voltasse pra casa, teria que assistir os irmãos comendo doces e rindo.

Quando Adam terminou de narrar sua odisséia, não havia oxigênio suficiente no quarto para manter-nos. Todos rolavam no chão, rindo até não poder mais, mal conseguindo respirar, com os rostos vermelhos, lágrimas nos olhos e tentando imaginar a expressão facial da criança que teve seus doces sequestrados.

Adam esvaziou a fronha no chão e tivemos uma surpresa: dentro da sacola havia um boneco de pelúcia do Jason, da série Sexta Feira 13. Caíamos ao chão novamente, imaginando o desgoto imenso do pivete. Sem dúvida ele perpetuará essa história, passando-a de geração em geração e sempre arrematando com o conselho de não andar com seus pertences voltados para o lado da rua.

Adam e seus terríveis amigos não estavam satisfeitos. Voltaram à rua pouco tempo depois e em menos de meia hora, voltaram com não apenas uma, mas DUAS fronhas, desta vez surrupiadas de duas meninas. Havia até uma bolsinha de maquiagem dentro da sacola.

Meus óculos até embaçaram de tanto que ri. Cada vez que eu lembrava da infinita tristeza das vítimas do meu amigo, sentia uma pontada no coração, quase um peso na consciência. Mas aí eu comia outro M&M roubado e ria mais ainda.

Agora que paro pra pensar, não é a toa que os crentes dizem que Halloween é coisa do diabo.

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novembro 9, 2005 - Posted by | Uncategorized

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