Hoje é um Bom Dia

Faça-me um favor? Pare esses torrents de CDs de Los Hermanos e vá até a sua cozinha (aliás, pare de qualquer jeito, Los Hermanos é uma desgraça). Encha um copo com água. Em seguida, despeje um pouquinho de sal dentro do copo. Misture com uma colher de sopa, ou com o dedo mesmo caso você seja muito hardcore e contra o sistema e obedeça tudo que um webmaster na internet mande você fazer. Agora mande tudo pra dentro, sem esquecer de gargarejar a mistura cuidadosamente por uns trinta segundos. Cuspa na parede.

Se a experiência acima não arrancou lágrimas dos seus olhos e não te fez esmurrar a parede de tanta dor, meus parabéns, você não está sendo vitimado por aftas do tamanho de moedas de cinquenta centavos.

Eu infelizmente não divido a sua sorte.

Desde semana passada minha boca virou o habitat natural de uma ferida circular e purulenta popularmente conhecida como “afta maldita”. A pereba surgiu de repente, como quem não quer nada, quando eu tava escovando os dentes outro dia aí. O contato da menta com o machucado doeu como trinta marteladas numa canela desprotegida, e então desisti de escovar os dentes naquela semana. Dias depois, o espelho do banheiro comprovou o que eu mais temia: a porra da afta ganhou terreno no lado interior do meu lábio inferior (riminha não-intencional atrai leitores, me disseram), tornando refeições uma experiência incrivelmente dolorosa, comparável apenas à perda de um familiar ou ter que assistir Resident Evil 2 pra resenhar aqui no blog.

Como se isso não fosse o bastante, notei anteontem o nascimento de uma segunda afta, do lado oposto da boca. Tipo, bem de frente da outra afta. Elas poderiam até trocar cumprimentos se fossem seres sentientes ao invés de pústulas bocais.

O aparecimento dessa segunda afta fodeu bonitamente a clássica estratégia de manipular a comida de forma que a mastigação se dê no lado sadio da boca, porque agora esse lado não existe mais. As duas aftas estão cobrindo uma ampla área na minha boca, não há mais como escapar da dor. A menos que eu bata meu almoço no liquidificador e chupe o purê de feijão com arroz e batata frita por um canudinho, tenho que me resignar a chorar a cada mastigada.

Revoltado por não poder mais degustar meus Cheetos sabor Churrasco sem que isso me faça praguejar pelo apartamento, voltei-me para aquele que sempre me ajudou em momentos de dor e sofrimento: o Google. Mandei ver “canker sores”, que são o anglo-saxão para a adorada “afta”. Antes que eu pudesse me perguntar “mas por que não pesquisei em português?“, o resultado apareceu.

E você sabe que a moléstia é muito satânica quando, após uns 5 mil anos de estudo da anatomia humana e das técnicas medicinais, ninguém sabe o que provoca as aftas. Se isso não prova que essa porra veio do inferno, eu reseto minha ROM de Pokemon. Tá, algumas aftas são apenas cortes ou fissuras na pele da boca, mas outras simplesmente aparecem sem nenhuma explicação. Se foder. E não tem cura, olha que beleza.

Porra, eu entendo não haver cura pra AIDS. Afinal, essa desgraça não tem nem 40 anos de existência, e além disso você não pode nem vê-la – num dia você está passando férias na Tailândia e pagando menos de cinco dólares por uma prostituta, e no outro tá na UTI tomando mil e um antibióticos pra não morrer de gripe comum. Mas afta existe desde que o homem tem boca, e um espelho denuncia sua existência. Como é que não há uma vacina pra essa porra, alguém me diga.

Há tratamento, ao menos – se bem que o tratamento não parece ser muito melhor que o problema. Alguns sites me informaram que, pra diminuir a dor, você pode bochechar uma mistureba de água com bicarbonato de sódio. A informação, infelizmente, veio com pelo menos 10 anos de atraso – o último bicarbonato de sódio que passou por minhas mãos vinha num kit Mini Químico da Estrela que matou o gato do vizinho.

Mas esse é o caso claro em que o remédio é pior que a doença, especialmente se você levar em consideração que aftas desaparecem espontaneamente em algum tempo. Sabe por que o bicarbonato com água alivia a dor? Porque ele destrói os nervos que enviam os sinais de dor pro seu cérebro, esculhambando permanentemente a estrutura da sua boca. É mais ou menos como explodir a própria casa porque você não quer esperar que a visita desagradável vá embora.

Ou seja, não há nada que eu possa fazer. A primeira afta está quase curada, ou ao menos estaria se eu não insistisse em comer Cheetos sabor Churrasco. Já a segunda tá fresquinha, lembrando-me a cada cinco segundos que meus molares são no momento meus piores inimigos. Engraçado que sem uma afta você praticamente não nota que os dentes estão em contato constante com a pele da boca, mais ou menos da mesma forma que sem a tua canela, você não encontraria a quina da mesa de centro no escuro.

Me disseram que aquele gargarejo de água com sal que eu recomendei no começo do post fecha as aftas rapidinho, a custo de uma dor equivalente a dar a luz a uma criança mutante de cinquenta quilos. Já outros me disseram que a tal mistura provoca dor com ou sem aftas, uma vez que os dentes comumente provocam cortes menores que não evoluem pro estado crítico de uma afta, mas que ainda protestam quando entram em contato com água salgada.

Então, me digam aí: doeu?

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março 18, 2006 - Posted by | Uncategorized

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