Hoje é um Bom Dia

Estou abdicando minha naturalidade cearense, é sério. Acreditam que aquela porra do Jornal O Povo (que eu a propósito jamais comprei porque jornal é um negócio incrivelmente sem graça) escreveu uma materiola de tapação de buraco sobre blogs de cariocas, paulistas, gaúchos, mas não faz um comentariozinho sobre o do cabeça-chata aqui? Ignoraram a mim, o único material 100% cearense de exportação nos Canadás? Logo eu, que fiz gratuitamente inúmeras contribuições para a globalização da cultura paraíba, como por exemplo ensinar a namorada gringa a falar “baitola”, “quenga” e “rapadura”?! Isso é uma falta de consideração mais imperdoável que peidar no almoço.

Ceará, faça-me o favor de se foder.

(Não que seja preciso mandar, o Ceará já se fode há décadas.)

Bom, poderia ser pior. Ao menos não compararam o HBD ao Kibe Loco, como fizeram com o Cocadaboa. Ouch!.

A partir de agora sou OSHAWAENSE. Resigno minha insígnia de cabeça-chata comedor de calango para todo o sempre e amém.


A primavera finalmente chegou, e qualquer desculpa pra permanecer de molho dentro de casa jogando Pokemon no emulador do palm tornou-se injustificável – até porque o palm é móvel e eu não preciso mesmo estar dentro de casa pra treinar meu Blastoise, embora minha poltrona seja um pouco mais confortável do que a calçada quente.

Então, decidi explorar o ambiente das adjacências do meu prédio. Tracei meu plano num guardanapo durante o jantar, pensando “amanhã será um dia de muitas aventuras“. Acordei bem cedinho na manhã seguinte, o que foi possível graças a uma sensacional técnica que eu desenvolvi semana passada: basta deixar a janela aberta. Moramos do lado leste do prédio, e se você lembra alguma coisa das aulas de ciências da segunda série, deve saber que é o lado em que o sol nasce. Isso, aliado a algum tipo de entidade sobrenatural que rouba minha habilidade de evitar dormir com o rosto virado pra janela, faz com que os raios matinais cegantes perfurem minhas pálpebras como bala de fuzil na manteiga e me acordem antes que todo mundo. Ainda que eu tente levantar e fechar a janela, é tarde demais – perdi o sono.

Taquei qualquer roupa no corpo e saí em direção a um local mágico aqui nas proximidades do meu domicílio, mas que por refinadíssima vagabundagem eu nunca tinha me dado ao trabalho de conhecer: a Northview Library, que fica literalmente aqui na esquina.

Eu queria demais pôr uma foto do lugar aqui, mas vai ficar pra outra vez. Esqueci de levar a câmera quando eu saí, e o macaco treinado que programou a vergonhosamente horrível página da biblioteca não achou necessário ilustrar o site com a fotografia do estabelecimento. Tire um tempo na sua ocupada agenda pra visitar o asqueroso site da biblioteca; repare que a única coisa que a diferencia de uma homepage de 1996 é a falta do banner do Geocities no topo da página. Parece que o autor da página abriu o MS Frontpage 97, carregou o primeiro layout-padrão enquanto tirava fiapos de carne do dente com a unha, fez algumas poucas edições nos links e mandou a porra toda pro ar usando o CuteFTP enquanto um vídeo RealPlayer de Cavaleiro Duzodíaco baixava a incríveis 3kbps.

Mas o que falta em estilo, estética, profissionalismo, qualidade e basicamente qualquer tipo de característica que poderia redimir o site é compensado pelo excelente serviço da biblioteca pública. Pra começar, achei a biblioteca incrivelmente democrática – ao contrário de outras instituições mantidas pelo governo da província, eles não fazem distinção entre cidadãos canadenses ou moradores de outras nacionalidades. Enquanto a maioria dos estabelecimentos governamentais exige cidadania plena pra que você possa aproveitar dos seus serviços, a galera da Northview não quer saber se você passou por todos os processos formais de naturalização ou se você chegou no país flutuando em cima de uma porta e tá se escondendo da imigração desde 1989 – contanto que você possa provar que reside em Ontário, fica subententido que você está pagando impostos nos produtos que consome (o imposto é adicionado ao preço da etiqueta quando você compra qualquer coisa, você paga o extra no caixa), e em conclusão tua grana tá mantendo a biblioteca da mesma forma que o dinheiro dos gringos está. Todo mundo tem direito de usar aquela porra.

(Aliás, tem uma clínica de saúde sexual para jovens aqui em Oshawa que funciona sob a mesma política. Tive a oportunidade de ver em primeira mão a magia que transformou meus impostos em uma seringa descartável tirando sangue do meu braço, mas isso é assunto pra outro post que eu prometerei hoje e talvez escreverei no Natal de 2057)

Mal entrei na biblioteca e já fui furiosamente arrancando o palm do bolso, procurando um hotspot. Diz a lei não-oficial wifinesca que lugares como bibliotecas devem por obrigação ter uma forma dos nerds se conectarem onlinemente, ou a população se revolta e taca fogo no prédio. Acho que a galera de Oshawa não conhece a regra, porque não havia um router wifi na biblioteca. Nem mesmo um criptografado.

Mas lembrei que o objetivo de dar uma voltinha pelo bairro era justamente desplugar um pouco, então respirei fundo e enfiei o palm no bolso. Felizmente essa conclusão veio antes de eu ver a fileira de PCs com acesso online gratuito, ou eu teria ficado por lá mesmo.

Após morar por mais de dois anos naqui, eu finalmente cheguei à perfeita resposta quando alguém pergunta “mas cara, qual a principal diferença entre um país fodido como o Brasil e o Canadá?” A resposta é tão concisa, direta e satisfatória que eu acho que vou até programar uma macro de MSN pra colar a frase sempre que eu apertar Ctrl+Alt+Shift+Insert+B+4:

As instituições públicas funcionam.
A Northview é, sem chance de concorrência, a mais organizada biblioteca que eu já vi na vida. Não apenas organizada, mas bem muito bem equipada, abundante em eventos especiais pra comunidade* e exala uma sensação forte de “tudo aqui tem como finalidade servir bem vocês, negada”.

Pra começo de conversa, o cadastro na biblioteca é gratuito. O aluguel de livros é gratuito. Não há taxa de renovação, nem taxa pela carteirinha, você não precisa ir tirar fotos pra colar no cartão, nada. Chega lá, mostra alguma prova de que você mora na província, e pronto, cabou. Eu procurei desesperadamente por algum documento na minha carteira em que constasse meu endereço, mas não havia nenhum. Fiquei de fazer o cadastro outro dia, mas por enquanto nada me impedia de averiguar o lugar.

Uma das surpresas mais interessantes é que a biblioteca oferece trocentos milhoes de cursos de línguas e treinamento para voluntariado, tudo grátis. Decidi que finalmente acharei alguma coisa interessante pra fazer, e anotei um monte de telefones. O ambiente é muito arrumadinho, há salas pra reuniões que você pode reservar gratuitamente, há armários pra guardar seus cachimbos de crack, tem também uma sala de exibição de filmes onde toda semana eles, ahn, exibem um filme (gratuitamente), computadores com acesso à internet, porra, tem de tudo naquele lugar.

O que realmente me fez tirar o chapéu pro negócio é que eles alugam não apenas livros, mas DVDs também. Achei desde temporadas completas de Simpsons a Cidade de Deus (!), passando por séries inteiras de animes populares que até eu gosto um pouquinho, como Evangelion. E o aluguel de até cinco DVDs custa apenas UM DÓLAR, que na verdade atua apenas como “depósito de segurança”. Se eu não estiver enganado, eles até devolvem seu dólar depois que você traz os filmes de volta.

Fui à casa da namorada durante a tarde e cantei as maravilhas sobre a biblioteca. Os filmes baratíssimos, os computadores com acesso internético ilimitado, a organização pristina, o serviço eficiente, tudo. Ela apenas falou, com um rosto muito não-impressionado, que qualquer biblioteca – qualquer biblioteca PÚBLICA, ainda por cima – aqui é assim. E aí me lembrei de uma vez, há anos, que precisei procurar um livro na fodidíssima Biblioteca Pública Central em São Luís. Não preciso entrar em nenhum detalhe pra traçar paralelos entre as duas; qualquer pessoa que já dependeu de uma instituição que traz a palavra “público” no letreiro é familiarizado com o que eu encontrei lá. A gritante falta de interesse do nosso governo em relação a praticamente qualquer coisa de que o povão dependa é de entristecer e envergonhar. É meio melacólico admitir, mas me sinto mais bem tratado por uma terra estranha do que pelo meu próprio país. Aqui eu sei que meus impostos REALMENTE estão sendo utilizados pra alguma coisa que eu VOU usar, ou que eu gostaria de usar mesmo que não precisasse.

Amanhã vou lá sem falta tirar meu cartãozim. Levarei a câmera e passarei um caô bonito nas bibliotecárias, dizendo que escrevo pra um jornal online pra imigrantes brasileiro e que tou escrevendo uma matéria sobre a Northview. Com um pouquinho de carinho e paciência no Photoshop, produzo até um crachá semi-confiável pra dar mais credibilidade à história. Se eu tiver cara de pau suficiente pra tentar a mutreta, amanhã posto fotos do interior da biblioteca.

Não tem como não amar esse país.

*Perceberam que o orkut matou essa palavra? Hoje em dia não dá mais pra pensar em “comunidade” sem pensar em algo idiotamente associado à palavra, como “Odeio Acordar Cedo”.

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março 31, 2006 - Posted by | Uncategorized

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