Hoje é um Bom Dia


Eu simplesmente não entendo DragonBall Z. Eu sou incapaz de compreender como esse programa passou tanto tempo no ar – em mais de uma emissora – se tornando sucesso absoluto entre guris por todo o país apesar de não fazer nenhum sentido que seja, e como os criadores dessa porcaria têm a moral de sair de casa sem que transeuntes joguem objetos pesados neles.

Pelas poucas vezes que assisti, deu pra sacar que o desenho não vai muito além de personagens desproporcionais com trezentos quilos de músculos voando de um lado pro outro, atirando bolas mágicas de energia colorida, cada uma explodindo uma área do tamanho de Goiânia mas que, no entanto, não provocam nem mesmo um arranhão na pessoa em que ela foi atirada.


Não vai machucar ninguém, desista.
Sim, não posso me esquecer dos berros. Em DragonBall Z ninguém fala, a comunição é estabelecida na base da gritaria. Durante praticamente todo o seriado, os personagens conversam como se cada interlocutor estivesse a trinta quilômetros de distância uns dos outros, e usando fones de ouvido. Até pra sussurar aqueles putos abrem o berreiro.

A trama nessa porra de desenho é provavelmente a coisa mais previsível jamais imaginada pela mente humana, com exceção do filme Titanic (“nossa senhora, um filme sobre o mais famoso naufrágio na história! Imagino o que acontecerá nesse filme“):

Há um personagem com nome perigosamente pornográfico para crianças de 13 anos saírem gritando pela escola: Goku. Ele é todo fodão e tal. Aliás, ele não apenas é fodão, mas ele é o mais fodão DO UNIVERSO. Exagero é a palavra-chave nesse lixo, então dizer que o cara é o melhor lutador do país ou do mundo não é suficiente. Tem que ser DO UNIVERSO.

Apesar de ele ser o cara mais forte do cosmo (portanto tornando a competição injusta para qualquer um que esteja dirigindo qualquer coisa menos blindada que um tanque de guerra americano), os criadores enfiam pela nossa goela a mesma história todos os episódios: Alguém mais forte que o rapaz Goku chega, chuta as bagaças de todo mundo (“todo mundo” aqui tem significado literal – o vilão tem que matar TODAS AS PESSOAS DO MUNDO pra ao menos levantar uma sobrancelha de Goku) e, se possível, explode o planeta no final.

De onde o cara mais forte apareceu, considerando que o Goku era supostamente o cara mais forte do plano existencial, eu sinceramente não sei. Provavelmente surgiu de algum desses lugares inventados ou inexistentes, como Tangamandápio, Suriname ou uma comunidade legal no Orkut.

Essa é toda a premissa do desenho: Caras mais fortes chegando e chutando as bagaças dos heróis, que gastaram os próximos trinta episódios se recompondo da sensacional coça que levaram do recém-chegado, o que culminará num episódio mela cueca (ou seja, a luta final se extenderá por pelo menos quatro capítulos) em que Goku finalmente mata o vilão. É que nem no seu tempo do primário, com exceção que você não voava.

A cara de pau dos roteiristas do anime não conhece limites. Sabendo que a trama é tão profunda quanto um pires, os caras sabem que não poderiam jamais ser diretos com a história, porque afinal de contas ninguém gostaria de assistir um desenho com quarenta segundos de duração. Na falta de um conteúdo de verdade pra preencher a duração de um episódio, cada ação desinteressante e de pouca importância é minuciosamente explorada em segmentos extremamente desnecessários. Os criadores do desenho poderiam literalmente fazer um episódio em que Goku não faz nada além de jurar algum outro personagem de morte enquanto penteia o cabelo, e isso não seria nem um pouco pior do que o que já acontece no seriado.

Dos mais ou menos vinte e cinco minutos de duração um capítulo de DBZ, três minutos (ou menos) são utilizados para explicar qual bunda o Goku e sua gangue está chutando (ou quem está chutando as suas). O resto é preenchido com explosões atômicas, gritos, e uma quantidade desapontantemente minúscula de sangue, porque afinal de contas ainda é um desenho direcionado a pré-escolares. Demora um ano para os personagens do desenho conseguirem matar alguém; é impressionante. Talvez se eles não lutassem com o cara por apenas 40 segundos e passassem o resto do capítulo gritando entre si, dizendo que será impossível derrotá-lo, os resultados seriam mais alentadores. É irritante demais. Sabe quantos personagens de Dragon Ball são necessários pra trocar uma lâmpada? Só um, mas demora três episódios.

Opa, ia esquecendo: O padrão do “cara mais forte” nunca muda. Alguns dos perfis de inimigos mostrados na série foram:

a) Um alien
Eles são sempre malvados. Hollywood não mente.

b) Um robô
Bando de filho da puta que estão sempre apenas esperando para dominar geral. Repetição é a chave do sucesso; não importa se o vilão da semana passada era um robô. Os expectadores querem ver algo com que já estão familiarizados, e não serem apresentados a conceitos novos e originais.

c) Um, tcharã, ROBÔ ALIEN.
Nossa, me diz se isso não é criativo pra caralho. Além de lançar mão dos maiores clichês da história do cinema, eles uniram os dois produzindo um fantástico novo estereotipo. “Novo”, é claro, é usado aqui sem muita responsabilidade.

d) O filho de um personagem que veio, olha só que original, DO FUTURO.
Porra, os caras já colocaram ETs e andróides no negócio. Se o objetivo é fazer o mínimo sentido possível, por que não ir até o fim? Adicionando viagens temporais no desenho, seus criadores asseguraram-se de passar longe de qualquer coisa que se assemelhe a coerência.

Se bem que, num desenho com bolas roxas de energia espiritual e super macacos gigantes espaciais (Macacos gigantes espaciais. Repita essa frase algumas vezes até que você compreenda as implicações de assistir um desenho animado que consta com macacos gigantes espaciais.), viagem no tempo parece algo tão trivial quanto ir à padaria da esquina e descobrir desesperado que não há mais margarina.

E não podemos esquecer, é claro, da clássica reviravolta “inimigo-que-vira-amigo”. Não me levem a mal, é até um tema interessante, quando não acontece quarenta vezes por episódio. Se torna muito óbvio (seguindo o padrão do desenho): se o Goku tá chutando a bagaça de alguém no episódio de hoje, é bem provável que amanhã eles estarão treinando juntos para salvar a Terra do terceiro “cara mais forte”, que aparecerá ainda nessa semana. Aí aparece o cara ainda forte da semana, um robô samurai bissexual mutante mãe solteira atriz e modelo de Netuno, e tenta destruir a Terra de novo (e provavelmente conseguirá, não que isso seja algo que já não acontece praticamente todo dia no universo de Dragon Ball Z).

E semana que vem ele tá treinando junto com os outros dois.

Tenho uma teoria que explica esse estranho fenômeno dos inimigos virando caras legais: Perceba que a essa altura do campeonato, a população da Terra já foi morta (e ressuscitada) umas quinze vezes. Os caras maus estão cansados dessa putaria. Eles percebem que não tem sentido tentar destruir um planeta de habitantes imortais e com tão poderosos defensores. Qual o propósito de matar gente que não pára de voltar à vida? Acho que é por isso que metade dos bandidos que aparecem no desenho se tornam mocinhos.

– Ah, foda-se esta porra. Esses terráqueos não morrem, caralho. Vamos jogar videogames e esperar o próximo panaca destruidor de planetas chegar. Passa o sorvete aí.

Os caras maus se tornam bons apenas porque não têm nada melhor pra fazer. Não é incrível? Os criadores do desenho abandonaram qualquer esperança de dar sentido a essa porcaria e nem se preocupam mais em dar motivações aos personagens.

Formidável.

Anúncios

julho 14, 2006 - Posted by | Uncategorized

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: