Hoje é um Bom Dia


Às vezes todos nós temos aquele momento em que dizemos pra nós mesmos “Sabe duma coisa? Bem que hoje eu poderia assistir um filme bizarramente mal produzido, com um custo de produção que rivalizaria com os de uma coxinha de posto de gasolina de beira de estrada, com uma história CLARAMENTE inexistente, estrelando pessoas que provavelmente sequer sabem soletrar a palavra “atuação”, que o diretor convenceu a participar da película por meio de ameaças de sequestrar seus animais de estimação“. E você continua, “…e que bom seria se o filme em questão fosse canadense!“.

Bom, hoje é o seu dia de sorte. Se você está realmente com vontade de assistir à pior contribuição canadense para a comunidade global desde a Alanis Morissette, levante a bunda da cadeira neste momento, vá à locadora, lembre-se que alugar filmes custa dinheiro e que você tem uma conexão com a Nova Internets 2.0 Shareware Version®, e baixe Cubo.


Os personagens descansam entre a última morte violenta e sem propósito e a próxima
Cubo conta a história de um diretor canadense que foi convencido a filmar uma película cujo roteiro resume-se a “um bando de pessoas morrendo de formas que, apesar de envolverem efeitos especiais criados por um garoto de 13 anos usando o Caligary True Space num Pentium 100, não dão a mínima pista de algo que pudesse se assemelhar, ainda que distantemente, a um roteiro”. Caso a frase anterior tenha ficado muito longa e você teve dificuldades em compreende-la, aqui está o resumo numa oração de apenas cinco palavras: não existe roteiro em Cubo. E sim, “em” é uma palavra e pronto.

Detesto ser tão categórico (bom, na verdade não), mas simplesmente não existe roteiro nesse filme. O diretor de Cubo resolveu lutar contra as convenções facistas do universo hollywoodiano, que envolvem por exemplo técnicas ultrapassadas como “apresentar progressão de eventos lógicos que desenrolam a trama”. Ao invés de, sei lá, CONTAR UMA HISTÓRIA, Cubo apenas mostra pessoas aleatórias morrendo vítimas dos piores efeitos especiais que eu vi desde Jurassic Park III: Michael Crichton Precisa de Uma Nova Ferrari, tudo enojadamente envolto por uma aura de sentido metafórico/filosófico que fez milhares de espectadores jurarem pelas suas próprias vidas que iriam convencer os amigos de que o filme não apenas faz bastante sentido, mas que é até um bom filme.


No frame, três personagens são confrontados por frustrações que dão insights sobre a psiquê humana em situações de stress. Um pouco à direita, um quarto personagem tem as tripas removidas pela narina esquerda
Se você cometer o erro de julgamento de alugar esta porcaria pra ver se a sua opinião baterá com a minha, aqui está basicamente o que você poderá esperar do filme.

Umas sete pessoas acordam dentro de uma espécie de prédio composto de diversas salas cúbicas. Os personagens se encontram, trocam informações que você sabe imediatamente que são decisivas pro desfecho da “trama”, e então começam a morrer, porque as salas cúbicas são cheias de armadilhas.

Ou seja, o Cubo está lá, as pessoas estão lá, e umas armadilhas também estão lá. Isso é tudo que você merece saber. Como assim, você quer entender o que é o tal Cubo? Não há o que entender, o Cubo é um cubo e pronto. Por que você se importa em entender como seria possível construir algo como o Cubo, ou ainda entender qual seria o propósito de usa-lo para matar pessoas aleatórias? O que você quer dizer com “a premissa do filme é idiota e praticamente requer fé para que faça um grama de sentido”? Pare de me fazer perguntas irrelevantes e veja aquele sujeito tendo sua cabeça arrancada.

Como eu disse, isso é tudo que você merece saber, ou ao menos foi isso que o diretor decidiu. Se você tem qualquer desejo de compreender a existência ou propósito do tal Cubo, de onde ele surgiu, quem está por trás dele e etc, me desculpe, mas isso significa que você é burro. Querer compreender um filme com base nas informações que a história fornece é uma característica de pessoas cretinas que ouvem Los Hermanos e assistem Praça é Nossa; apenas pessoas “inteligentes” conseguem apreciar um filme como Cubo, que requer que você se cadastre em oito fóruns diferentes e combine várias teorias pra entender metade do que o filme quis dizer.

As próximas duas horas (ou sei lá qual é a duração daquela merda) são divididas entre 1) um personagem dá um passo em falso, se fode e é dividido em centenas de pedacinhos, muitos deles em chamas, 2) um personagem fala algo pra outro personagem, num diálogo supostamente profundo e inspirador 3) os personagens passam de uma sala pra outra, 4) repete.


Lâminas prontas pra decepar o baço de um descuidado, ou uma analogia referente à descaracterização humana à margem do século 21
Independente de não fazer o menor sentido não importa como você tente analisar o filme, Cubo ajuntou uma pequena legião de fãs que acredita piamente que aquelas duas horas divididas entre atuação que envergonhariam uma trupe amadora de teatro colegial e efeitos especiais que parecem ter saído de uma propaganda de computador nos anos 80 são uma metáfora para a vida e alguma coisa assim.

Vem cá, vocês não deveriam estar assistindo aulas de Introdução às Obras de Platão no Centro de Ciências Humanas de seja lá qual é a faculdade que vocês cursam? Se tem uma raça que adora filmes sem sentido que os permitem fingir pros amigos que eles o entenderam, essa raça de chama “calouro de Filosofia”.

O problema é o seguinte – eu não assisto filmes pra contar uma história a mim mesmo, tentando me convencer de que foi isso que o diretor quis dizer enquanto anotava instruções de uma determinada cena num guardanapo, vizinho a outras anotações como “segunda feira – lavar as cuecas, terça feira – pagar o aluguel”. Eu estou pagando pra ver o filme, eu quero que o diretor me conte uma história. Se eu quisesse passar duas horas tentando adivinhar o que alguém está querendo me dizer, eu eu estaria jogando Imagem e Ação com meu vizinho que insiste em desenhar uma geladeira de diversas formas festivas, contanto que nenhuma dessas formas se assemelhe a uma geladeira.

O principal problema de filmes como Cubo é a previsível onda de sabichões que afirmam saber exatamente e literalmente tudo que o idealizador do filme queria dizer com cada cena, como se isso significasse que eles estão a um nível acima da condição humana e merecem se diferenciar da categoria Homo Sapiens.

Cubo não é “profundo”, seus imbecis. Guardem os livros de retórica, não há nada pra analisar nesta porcaria. Há uma imensa diferença entre roteiro profundo e roteiro não-existente; e essa diferença é que no primeiro a trama não necessita de closes das tripas de um dos personagens.

Se você gosta de violência desnecessária, fazer de conta que entendeu o sentido por trás de um filme sem sentido e de molestar crianças de colo com espetos de churrasco, então Cubo é uma boa pedida pra você.

Eu, por outro lado, preferiria esfregar merda nos olhos que assistir esse filme mais uma vez. E é por isso que escrevi essa resenha hoje, apesar de ter assistido Cubo três anos atrás e tendo que puxar tudo de memória pra evitar alugar aquela porcaria só pra escrever um post.

Anúncios

agosto 26, 2006 - Posted by | Uncategorized

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: