Hoje é um Bom Dia

Acho que não tem um melhor exemplo de unanimidade na internet brasileira que a tirinha dos Malvados. Conheço nego que considera aquele site uma verdade bíblia, e seu autor um novo Jesus Cristo sem barba e ainda não crucificado. A julgar pelo onipresente bannerzinho dos Malvados, dá pra acreditar que todo mundo com acesso à internet adora aquilo ali.

Quer dizer, todo mundo menos eu.

Não é de hoje que eu olho praqueles rabiscos e simplesmente não entendo qual é a grande genialidade do cara. E isso é frustrante, porque sempre que leio aquelas porras cinco, seis vezes e simplesmente não vejo absolutamente graça nenhuma me sinto como um pedreiro iletrado que acabou de entrar numa galeria de arte moderna por engano e não entende o motivo pelo qual os riscos e formas geográficasmétricas nos quadros são considerados imagens geniais. Me sinto um incrível ignorante incapaz de detectar as referências ao pop-cult, que não sabe analisar uma analogia caricaturizada, que não entenderia uma crítica social bem-humorada nem que injetassem-na diretamente nas minhas veias. Dá vontade de chorar, quase Fico mó chateado.


Admito falta de sagacidade necessária pra interpretar e consequentemente venerar o cartum do cara com todas as forças do meu ser, dedicando horas a fio a escrever emails congratulando-o pela forma como ele é melhor do que todo o resto da humanidade. Por isso, nem preciso acrescentar que não entendo essa masturbação coletiva da blogosfera em geral resultado do lançamento do livro do cara.

Tipo, é irado pro Dahmer e tal. Conseguiu um reconhecimento foda com o trabalho dele e isso é legal pra caralho – aliás, foda-se o reconhecimento, o cara tá fazendo dinheiro porra. Poucas celebridades internéticas alcançam esse patamar com material próprio que não consista exclusivamente em dar Ctrl C numa fotografia noticiosa e colar um texto em cima com o Photoshop – texto esse derivado de um trocadilho infame geralmente baseado no nome do infeliz estrelando a notícia.

(Sim, Kibe Loco, estou olhando pra você.)

Mas o negócio é que eu simplesmente não vejo a graça naquelas tirinhas. Li umas trinta agora a pouco e não vejo nada além dos mesmos bonequinhos que parecem ter sido desenhados por uma vítima de Mal de Parkinson sofrendo um ataque de epilepsia durante um terremoto e umas frases desconexas que imagino serem uma tiradinha super sarcástica, culta e descolada sobre alguma coisa que eu ignoro. Nesse momento recolho-me a minha insignificância e visualizo mentalmente o leitor-padrão das tirinhas: um ex-hippie, ex-petista de 46 anos que ouve Mutantes, lê José Saramago e frequenta book clubs.

Sou tão burro assim, ou o imperador está mesmo com as bolas de fora e ninguém tem coragem de falar?

Não tou de zoação, seus putos. Tou sendo sincero mesmo. Alguém me diz o que há de tão supimpa nessas tirinhas, pra que eu não me sinta mais como o palerma do grupo que não entende as piadas e fica secretamente com inveja dos que tão rindo. Ou então digam que não entendem a tirinha também, que eu me sentirei menos só.

E tragam todos os seus Tazos, porque estou abrindo o bolão de comentários-padrão para este post!

Aposta número 1
O leitor-padrão das tirinhas chegará a conclusão de que eu sou um incrível imbecil por não compartilhar de seu refinado senso de humor. Uma vez que eu não amo o cartum como ele, sou automaticamente um inimigo mortal digno de receber as piores difamações disponíveis, sem dúvida envolvendo minha preferência sexual. O camarada fechará o comentário ousando dizer que eu não mereço o oxigênio que respiro por não dedicar minha vida a idolatrar André Dahmer;

Aposta número 2
Alguém dirá que adorou o texto sem sequer ter lido-o todo, e pra seu infortúnio deixará isso transparecer no comentário. Meia dúzia de outros comentadores o chamarão de paga-pau, embora também tenham concordado com o texto sem ler inteiro;

Aposta número 3
Um dos membros do HMD aproveitará minha baixa guarda pra frisar o fato de que eu sou mesmo uma besta quadrada. Antes que eu sequer pense em responder, a cavalaria armada já estará aqui em peso, montando a defesa do companheiro. Se eu cometer o erro de responder, seja lá qual for a resposta, meu link desaparecerá novamente lá do blog dos caras.

Aposta número 4
Tudo isso acontecerá ao mesmo tempo. Os comentários virarão mais uma daquelas intermináveis brigas no melhor estilo HBD, isso é, aquela coisa bonita onde vários internautas tentam de todas as formas possíveis garantir que são melhores do que seus antagonistas (ou seja, um bando de desconhecidos cujas opiniões não afetam em nada suas vidas). Alguém me ofenderá, eu não saberei levar na esportiva, e então dedicarei uns quinze minutos escrevendo um post-sequência tentando mostrar para todos que o meu ofensor é na verdade um indivíduo com problemas mentais e que é realmente digno de nossa pena. No fim das contas todos esquecerão de mais uma briga e dois leitores depositarão 10 dólares cada na minha conta do Paypal.

Vamos lá, tenho um monte de Tazos aqui.
Valendoooooooo.

[ Update de esclarecimento ] Quando escrevi o texto, julguei que os Malvados detêm uma imagem conhecida o bastante para que a minha tirinha ficasse automaticamente subentendida como paródia, sem a necessidade de uma legenda explicitando o gracejo.

Percebi que vários leitores pensaram que a tirinha do post é a própria tirinha criticada, então agora tá explicado. Não é.

O site com as tirinhas a que eu me refiro é esse. Leia algumas, depois leia a que ilustra esse post, e vocês entenderão.

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novembro 22, 2005 - Posted by | Uncategorized

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